
Aborto (ou que comecem os jogos)
Janeiro 15, 2007Para já, começo dizendo que vou tentar escrever este post da forma mais sucinta que me fôr possível. Todos sabemos que esta é uma questão que envolve muita coisa, sentimentos, moralidade, religião, política, justiça, cultura, enfim, é um daqueles assuntos que quando se começam a debater acabam sempre em sangue (piada de mau gosto não propositada).
Em primeiro lugar, definição de aborto:
Interrupção voluntária ou involuntária da gravidez.
Aqui vamos debater então a interrupção voluntária da gravidez, não a involuntária (que acontece pelos mais variados motivos), nem pessoas extremamente idiotas (vulgo abortos).
Não sendo um especialista médico, político ou algo nesses vou apenas dar a minha opinião, que vale o que vale, é escusado virem comentar para aí a dizer que sou uma abécula e que não percebo nada disto, porque apenas estou a mostrar um ponto de vista moderadamente informado acerca do assunto.
Definição de despenalização do aborto:
Ora, a despenalização do aborto até às 10 semanas, não é a obrigação de todas as mulheres abortarem durante essa janela de tempo, não é sequer um método alternativo ao uso do preservativo, é um prazo, um prazo para pensar. Porque ter um filho não é algo leviano, não é como pegar num cão na rua e levá-lo para casa. Um filho precisa de uma boa educação, de atenção e carinho dos pais. Um filho não é um brinquedo que se tem e que depois quando cresce só traz chatices, não é também uma obrigação do casal depois de se casar. Um filho não é só um filho, é também uma nova vida.
Aborto? Em que situações?
Neste momento em Portugal só é possível abortar legalmente pelas seguintes razões e nos seguintes prazos:
- Se a gravidez puder causar risco de vida ou de grave lesão para a saúde física ou mental da mulher e for realizado até às 12 semanas.
- Se o feto sofrer de doença ou de um grave defeito de nascença e for realizado até às 24 semanas.
- Se a gravidez resultar de um crime sexual (uma violação por exemplo) e for realizado até às 16 semanas, não sendo necessário que haja queixa policial. Nas situações permitidas a interrupção voluntária da gravidez pode ser realizada quer em clínicas particulares quer em estabelecimentos públicos.
Se a mulher não quiser por outra razão (vamos ver quais adiante) abortar, terá de o fazer ilegalmente, na maior parte dos casos sem as condições mínimas para efectuar este procedimento e arriscando a sua própria vida no processo arrisca-se a 3 anos de prisão. Sim, são 3 anos de prisão por uma decisão que inclui o próprio corpo da mulher e um feto (ou nem isso).
Isso, ou se tiver posses vai a um país onde o aborto não seja penalizado.
Ou seja, quem tem posses e deseja abortar vai continuar a fazê-lo, quem não tem e também decide que não quer ter um filho…
Razões para abortar:
Obviamente as questões actualmente previstas na lei, são qualquer uma delas situações limite que não são condenáveis (excepto pelas mentes mais fechadas).
Mas que razões mais poderão existir para uma pessoa poder abortar?
Inúmeras.
Podem não existir condições monetárias, podem não haver condições psicológicas, pode a mulher não querer educar um filho por qualquer razão que a ela lhe pareça válida. Claro que se uma mulher escolher não ter um filho, tem de ser acompanhada por especialistas a vários níveis, tem de ser uma decisão sem dúvidas, sem coerção e em plena consciência. Porque esta decisão tem a ver com o domínio do corpo da mulher, mas também com uma vida que está para nascer.
Mas antes de tudo, têm de se divulgar os métodos contraceptivos e estes têm de ser usados se a mulher não quiser engravidar. Este é o 1º passo. Se a decisão de não ter um filho começar antes de qualquer relação sexual, não há decisões difíceis a fazer. Claro que os métodos contraceptivos não são 100% infalíveis (alguns rondam, mas nunca são 100%), esta pode também ser uma das razões para abortar, falha de um método contraceptivo.
Porquê despenalizar o aborto até às 10 semanas?
De notar que o acto propriamente dito de “abortar” não é muito difícil. Achar alguém que faça esta operação na ilegalidade nem é assim muito difícil, basta falar com uma pessoa, que conhece outra pessoa, que conhece outra pessoa que faz isso em casa e sem condições nenhumas, basta cair dumas escadas, se não der cai-se outra vez e vai-se para o hospital a dizer que se escorregou “sem querer”.
E no meio disto tudo, onde está a dignidade? Onde está o direito de escolha que a mulher tem?
E porquê arriscar-se a ir presa 3 anos? Quando a culpa interior já é suficiente, quando a decisão foi tão difícil a tomar? O acompanhamento psicológico tem de continuar depois da intervenção, pois a decisão tomada está lá para sempre.
A Decisão
A maior parte das pessoas ainda pensa que com a despenalização o que vai acontecer se resume nesta frase:
“Epá António, tou aqui a pensar e vou hoje à clínica fazer um aborto. Volto daqui a 30 minutos.”
Decidir que não se quer ser mãe tem muito mais que isso, há todo um pensar nas consequências, pensar numa vida que não vai existir porque assim se decidiu. É uma decisão séria, tem de ser, uma decisão ponderada ao extremo e não pode ser coergida por ninguém. Isto é um ponto sério.
Não podem haver abortos simplesmente porque o Manel casado com a Maria não quis usar preservativo e depois “logo se via” e o “logo se vê” é um: “Agora tens de abortar porque não podemos ter um filho Maria!”.
Se pensarmos assim, vemos a importância dos métodos contraceptivos e a importância de pensar logo na questão da possibilidade de engravidar quando se escolhe um parceiro sexual e/ou amoroso.
A decisão tem de ser da mulher e apenas da mulher, e se tiver um companheiro este tem apenas de apoiar a sua decisão.
Coergir alguém a abortar isso sim, deve ser considerado crime (se já não o é) e deve remeter o/a indivíduo/a para uns bons aninhos num hotel prisional.
Vida ou algo que não sabemos explicar?
A questão que mais se mete é se oque está ali até às 10 semanas no útero da mulher não será uma forma de vida e assim o aborto é um caso de assassínio em que a vítima não se pode defender.
Bem, não sendo prepotente como a maioria dos membros do clero, ninguém sabe o que é a vida. Ninguém sabe quando começa. Mas pode-se imaginar o que essa vida será, e que condições lhe podemos dar para viver.
Há pessoas que se queixam das suas condiçõse de vida, que ameaçam suicidar-se, que prefeririam nunca ter vivido. Muitas das vezes são desabafos, da boca para fora, outras desejos recalcados não assumidos pela vergonha.
Se uma mulher imaginar que o seu filho vai ter uma vida infeliz porque não tem condições para o educar, não tem o direito de ser misericordiosa? Sim, porque ser misericordioso não é apenas deixar viver, é saber quando deixar morrer e às vezes matar (estou a olhar para ti eutanásia).
Não se pode fazer uma relação directa da infelicidade versus não-nascimento. Mas é isso que torna a decisão da mulher que escolhe não abortar apesar de todas as adversidades ainda mais grandiosa, é o facto de poder ter a escolha e mesmo assim decidir lutar por uma vida.
Onde vou meter a cruzinha no referendo?
A minha opinião é que sim. o aborto deve ser despenalizado até às 10 semanas, tendo em atenção os vários pontos que foquei anteriormente.
Não é uma questão de acharmos que somos contra ou a favor do aborto, é a questão de sermos prepotentes ao ponto de pôr na prisão mulheres que na sua liberdade e plena consciência escolhem abortar.
Finalizando:
Ao escrever este post, apercebi-me da ignorância que ainda tinha sobre este assunto, e que tive de pesquisar muito para perceber certos assuntos e inclusive para saber o que é legal neste momento.
Acho que isto é fundamental, estar informado, quer se seja a favor da despenalização ou não, é ter plena consciência das implicações que a nossa decisão vai tomar na nossa vida e na dos outros.
Tenho a certeza que deixei muito por dizer, mas não me quis alongar e nem tenho capacidade para debater este assunto a fundo (acho que ninguém tem, por muito que o ache).
Já agora aproveito para dizer:
Comentem apenas se tiverem algo de jeito para dizer e se pensarem naquilo que vão dizer. Eu sei que pensei bastante para fazer este post. Este é um assunto sério, não o minem com meias palavras, decisões apressadas, impulsos e comentários sem o mínimo respeito gramatical.






Na verdade, na verdade, depois de escrever o meu post, e depois de ler este e de concordar com tudo o que dizes, não sei até que ponto não ficará tudo relativamente na mesma, independentemente da resposta…
Agora as mulheres podem ser presas por abortar: resultado: quem realmente quer aborta, e no máximo há penas suspensas e umas infecções…
Com o sim, as mulheres deixam de poder ser presas:
resultado: continuam a não ser presas e quem realmente quer aborta… e …well…diminuem as infecções e aumentam os abortos.
Balanço final: Fica quase tudo na mesma.
A questão é mesmo ser considerada uma criminosa, para além dos remorsos.
Toma isso como uma questão de direitos e não como “ah, não vai mudar nada.”, se não mudar mais nada, pelo menos que mude mentalidades, e em Portugal precisamos muito disso. Mudar mentalidades.
yeah…vamos esperar que as mude para melhor =P
Não se afigura justo condenar uma mulher, obrigá-la a servir pena num estabelecimento prisional, apenas porque efectuou o aborto. Um feto é ‘algo’ cujo estatuto ontológico não é claro, embora possamos invocar argumentos neuroembriológicos para suportar a posição do ‘não’.
Deve-se dar o benefício da dúvida à mulher. Afinal, estamos a votar para a despenalização, não para a liberalização do aborto. De acordo com este quadro, o Estado deverá manter um registo dos abortos efectuados pelas mulheres, e estabelecer critérios que incluam o benefício da dúvida. Deverá ainda o Estado enfatizar as suas campanhas de educação sobre a contracepção, e ser mais proactivo na distribuição dos mesmos.
Não me parece que continuar a mandar mulheres para um estabelecimento prisionar apenas porque, a título de exemplo, um preservativo se rompeu, esteja de acordo com o direito natural à escolha. O Direito à Vida sobrepõe-se, mas para tal, seria necessário que o estatuto ontológico do feto fosse determinado positivamente.
Abraço, e parabéns pelo blog! Voltarei
De facto são várias as dúvidas que se põe neste assunto em relação ao que é exactamente a vida, mas que não conseguimos obter resposta certa.
Nesse caso, deixo o critério de decisão à mulher, porque é uma vida que já sabemos que existe e que toma uma decisão mais, ou menos acertada sobre a sua vida futura.
Se um dia se comprovasse que um óvulo já é vivo e um espermatezóide também, quer-me parecer que não podiam prender mulheres todos os meses, ou homens que usassem preservativo.
O ser humano faz parte da Natureza e esta é composta por vida e morte, não há camadas de cultura ou moralismo que imponham num ser que lhe neguem a sua Natureza.
Ninguém faz referendos para acabar com o genocídio bovino quando vê um bife no prato, e uma vaca é concerteza um ser vivo, e mesmo que se seja vegetariano também se estão a acabar com vidas vegetais para assegurar a sobrevivência.
Se dependemos de outras vidas todas os dias para sobreviver, porque não podemos então decidir a não-existência daquilo que nós próprios criámos, desta vez não para assegurar a auto-preservação, mas para asegurar uma melhor sobrevivência?
Volta sempre, Flávio, serás bem vindo
Ja agora… não são só umas infecções. Há quem morra por um aborto mal feito, há quem fique estéril ou com outros problemas graves.
cumprimentos
Obviamente, infecções que podem degenerar deixando várias sequelas ou provocando a morte. Até porque se o aborto é clandestino, não se quer ir ao hospital com medo de represálias e dos tais castigos penais…
Olá!
Não vou entrar em discussões; Não concordo minimamente com o que escreveste, mas respeito.
Só gostava de referir que não existe ninguém preso em Portugal por ter praticado Aborto. Por outro lado, todas as pessoas julgadas tinham praticado aborto já bastante depois da 10 semanas, o que significa que mesmo com a despenalização seriam julgadas.
Abraço!
Não será a questão de alguém estar preso é a de alguém ser condenado moralmente por uma escolha que lhe cabe a ela e não aos outros.
10 semanas é mais que tempo para decidir o impacto que um filho pode ter na vida dessa mulher, concordo que a seguir a isso sejam criminalizadas.
Mais uma vez, não se está a obrigar ninguém a abortar se se despenalizar o aborto, portanto todos os que votarem não poderão seguir a via de nunca abortar.
E digo mais, os membros religiosos, não se deviam pronunciar sobre questões políticas, como vergonhosamente o fazem, incitando as pessoas a votar em determinada opção. Os membros duma religião não podem esquecer que há pessoas de outras religiões e até sem religião que não têm os mesmos pontos de vista que eles nem seguem as mesmas convicções morais que eles. Portanto NÃO devem assumir isso como uma guerra santa contra o poder de escolha dos outros.
Não esquecer, no entanto, que um óvulo, um espermatozoide ou um zigoto são diferentes de um embrião: o embrião já começou a assumir características que são distintamente humanas. Ainda não possui, no entanto, a característica essencial à humanidade: um sistema nervoso consistente, capaz de dar origem à percepção e à consciência.
Não se deve esquecer, no entanto, que um embrião é ‘material biológico com elevado potencial de humanização’, ou seja, é impossível comparar um embrião (apesar de não ser constitutivamente humano) a uma vaca ou a um vegetal.
Parece-me, no entanto, que chegaremos eventualmente a um consenso, no campo da neurociência, embriologia e da filosofia sobre o estatuto ontológico do embrião. A religião nunca deixará de ver um embrião enquanto “vida humana”, porque a sua concepção sobre a génese da mesma inclui um elemento inequacionável cientificamente: a alma.
Concordo que entre as 8 e as 10 semanas, o aborto deve ser despenalizado, com base em factos neurocientíficos (e também, acessoriamente, devido a factos sociopsicológicos que decorrem de uma possível gravidez não-desejada ou não sustentável). A partir desse momento, o estatuto ontológico do embrião torna-se dúbio (findas 8 semanas, o processo de organogénese encontra-se completo, e o embrião ganha a designação ‘feto’), e como já disseste antes, 10 semanas é tempo suficiente para alguém prever o impacto de um filho sobre a sua vida e tomar a decisão sobre a interrupção da gravidez.
Não percebo essa hierarquização da vida. Porque é que um ser humano é mais importante que qualquer outro animal?
(E neste caso então porque não comparar um embrião a um animal não-humano, por essa lógica o embrião até é inferior a um animal, pois é um ser parasitário que rouba recursos à mãe, e duma vaca sempre se obtém leite.)
Não são tudo seres vivos? Essa separação entre humano e não humano tem raízes muito primitivas e sinceramente é indesculpável ainda existir.
Independente da tua opinião, que, como a minha, vale o que vale, já li aqui na parte dos comentários coisas bem engraçadas.
Li que o Direito à vida só se mantêm se “o estatuto ontológico do feto fosse determinado positivamente”. Eu que até pensava que a única condição para ter direito à vida era a própria vida agora vejo-me enganado. Talvez o feto não seja para muitos mais do que uma cárie, que se arranca quando se torna indesejável.
Depois leio “porque não podemos então decidir a não-existência daquilo que nós próprios criámos, desta vez não para assegurar a auto-preservação, mas para assegurar uma melhor sobrevivência”. O que me deixa concluir que, segundo as tuas palavras e num caso extremo, qualquer progenitor pode matar um filho, independentemente da sua idade, só para assegurar para si uma melhor sobrevivência (eu compreendo que seja chato quando os jovens começam a pedir roupa de marca…bora lá matar o puto que ele assim leva-nos à falência).
Deixem-me esclarecer o meu ponto de vista: eu compreendo que haja recurso ao aborto nos casos previstos na actual lei. Agora, a aprovar a lei nova, a mensagem que estamos a passar é que as consequências resolvem-se depois do mal feito, ao invés do correcto que era preveni-las.
Mais. Tenho bastante medo que a nova lei conduza a um aumento do número de abortos (como aliás aconteceu em todos os países onde foi aprovada a mesma lei), desconsciencializando as pessoas para a importância da vida humana.
E para os que dizem que num feto não há vida, esperem 9 meses a ver o que dali sai…
Parabéns pelo blog
Já agora, permite-me: http://oterceiroolho.lusopt.info/nao-obrigada/12/12
A vida é um conceito que ninguém sabe muito bem descrever, ninguém sabe a partir de quando dizer “OK, isto é um ser vivo, e isto não.” Porque basicamente o termo vida é um termo romantizado e não um termo absoluto e definido. Não basta algo ter um aspecto humano para se considerar vida, há animais que não têm aspecto humano que são vivos e estátuas com aspecto humano que não o são.
Um ser que já nasceu já é claramente um ser englobado pelo termo “vida”.
E se calhar um aborto pode evitar um futuro assassínio duma criança que leva uma vida infeliz duns pais que não a desejam.
E já agora consideras um feto vida, um feto malformado, não é então também uma vida, que se termina por conveniência da mãe?
E um feto criado a partir duma violação também é vida então e não é um feto com problemas, ah, mas porque o pai não era o desejado já não é uma vida se calhar… Ou lá por a mãe poder vir a morrer, é uma vida pela outra, o feto tem de viver!
Hipocrisia não é uma coisa bonita.
Concordo no entanto que a prevenção deve ser uma prioridade (e aliás referi isso no post), mas não podemos só culpar o governo por falta de informação. Os pais em casinha é que têm de explicar aos seus filhos estas coisas e explicar que não usar meios contraceptivos e não ter cuidado nas relações pode significar uma gravidez e aí a decisão de se ter ou não um filho é severamente dificultada, isto explicando à criança no que consiste um aborto e porque deve ser considerada apenas opção de último recurso mediante situações muito especiais.
Um governo não tem de educar os cidadãos, tem de lhe dar opções, a educação tem de ser transmitida pelos nossos tutores.
Eu na minha opinião concordo com a despenalização do aborto até às 10 semanas, não concordo com a sua banalização nem como alternativa a métodos contraceptivos, mas também digo, se uma mulher toma uma decisão como abortar de ânimo leve, não sei que tipo de mãe seria…
P.S.: As cáries são criadas a partir de bactérias que se formam devido à acumlação de restos de comida nos dentes, portanto uma cárie, o resultado da acção destas bactérias não é vida, mas as bactérias são uma forma de vida simples. Vai na volta ainda acusam o meu dentista de genocídio.
“E para os que dizem que num feto não há vida, esperem 9 meses a ver o que dali sai…”
Sim, vamos pegar num óvulo e num espermatozoide, esperamos uns meses e…. SAI VIDA! Sou uma verdadeira assassina porque não tenho filhos sempre que tenho a mestruação. É chocante como atiro o meu óvulo, que seria vida, para o lixo.
Eu concordo completamente com o aborto. Quem não o quer fazer, não o faz. Mas não é porque essas pessoas discordam que as outras têm de suportar um filho que não desejam. O feto não sente, e é melhor acabar tudo umas semanas depois da má noticia, do que passar o resto da vida com essa responsabilidade. Ter um filho não é fácil, não é uma decisão do tipo “bora ter um filho”. E se uma mulher engravida por acidente é melhor não prejudicar a sua vida e a do filho.
Claro, seria muito bonito uma adolescente, por exemplo, a deixar de estudar, a criar um filho, e a nãoconseguir emprego mais tarde. Mas é óbvio que terá de pagar a alimentação, vestuário, educação, etc etc do filho. Com que dinheiro? Se calhar seria boa ideia prostituir-se…
Se não há condições para uma criança nem para a sua mãe, o aborto parece-me ser a solução. A ideia de por a criança em adopção também não é lá muito boa, porque a mulher passaria o resto da vida a pensar onde estaria o seu filho, e o filho passaria o resto da vida a sentir-se ignorado, porque a própria mãe o abandonou.
Quanto á religião, estou de acordo contigo, é uma estupidez que eles façam tanta publicidade sobre o aborto. Ainda por cima manifestada por padres… HOMENS! Não são eles que têm de decidir, nem são eles que têm de levar com todos os aspectos negativos de ter um filho indesejado. É muito fácil gritar aos sete ventos que a vida é que é importante… Isso sim é hipocrisia.
Até porque as pessoas não têm a noção de que pode levar várias semanas até uma mulher se aperceber que está grávida, o que me foi notado obviamente por alguém do sexo feminino. Se bem que há casos em que é mais ou menos óbvio que uma mulher pode ficar grávida (preservativo que rompeu por exemplo), noutros nem sequer há razão para desconfiar de qualquer coisa (preservativo mal fabricado e sem defeitos aparentes).
Eu concordo com o que escreveste. Nestes assuntos, a religião nem devia estar presente na discussão, só serve para confundir e atrasar. E claro depois há os politicos, que apenas tomam o lado que mais lhes dá jeito, o lado que lhes irá atrair mais votadores para o partido deles no futuro. E infelizmente há tambem os ignorantes que deixam-se levar pelos cartazes espalhados por Portugal, sem sequer tentarem saber pormenorizadamente do que se trata isto tudo. É uma questão dificil, não devido á sua natureza, mas sim devido ao ambiente á sua volta. Politica, religião pioram isto tudo.
O aborto deve ser despenalizado, porque há muitas mulheres que apanham infecções e morrem estupidamente porque não têm dinheiro para ir para fora e as condições cá são, no minimo, insanitarias. Muita gente pensa que no final, se votarem não, as pessoas vão parar com os abortos, mas isto vai continuar, e continuar. Só que em vez dos fetos morrerem sozinho, levam as mães com eles.
PS: Escrevi isto tudo, mas pessoalmente apenas acho que matar o pessoal antes de nascerem é mais fácil do que mata-los depois de nascerem. (sim chocante, mas é um facto, É mais fácil morrermos dentro da nossa mãe. Não me critiquem por contar a verdade. Aceitem-na, por mais lixada que seja.) Fica bem PNC
Também vou votar sim.
Simsimsimsimsim.
Ver se é desta que passa.
Inicio estas palavras felicitando-os pela coragem em tornar conhecidas as vossas opiniões, apesar de, a meu ver, algumas das afirmações nelas contidas carecerem de poder argumentativo verosímil,sinónimo de que tudo vale para atingir um fim; afirmar, por exemplo, que o embrião é um ser parasitário que rouba recursos à mãe. Além de lhe ser destituído o direito à vida, ainda é acusado de roubar…mas como é possível, se roubar é uma acção, como pode algo sem vida cometê-la?!Acaba por ser um contra-senso.
Não pretendo convencer ninguém, apenas incutir-lhes o desejo de uma profunda reflexão…
Fala-se em estatuto ontológico, em factores sociopsicológicos, guerras religiosas, interesses políticos…utilizam-se palavras pomposas que complicam a simplicidade do cerne da questão: o direito à vida!Se nós, que aqui estamos a partilhar opiniões, vivemos graças ao nascimento e não ao aborto,porque queremos negar esse mesmo direito aos outros? Soa um pouco a egoísmo…
A vida é feita de dificuldades, de etapas que temos que ultrapassar, aprendendo com elas. Devemos tentar evitá-las, mas depois de instauradas temos que enfrentá-las, aceitá-las, solucioná-las e não fugir delas pela saída mais fácil…A isso se chama responsabilidade, a isso se chama saber viver. Saber viver não é querer aproveitar somente aquilo que nos apetece, é ter a coragem e a sapiência de saber lidar com todas as situações que a vida nos apresenta.
Vivam bem e ajudem outros a consegui-lo.
Grata pela vossa atenção.
Tudo de bom.
Susana, vai ver a definição de ser parasitário.
Aliás eu vejo por ti:
“Parasitas são organismos que vivem em associação com outros aos quais retiram os meios para a sua sobrevivência, normalmente prejudicando o organismo hospedeiro, um processo conhecido por parasitismo.”
O que dá um feto ou embrião em troca à mãe, por ela o alimentar e o proteger? Nada.
Nesse sentido a definição de ser parasitário encaixa que nem uma luva.
O vento também não está vivo e pode roubar-te o chapéu
É fácil afirmar que não se tem poder argumentativo, mas tu é que não argumentaste nada, dificilmente descrições são argumentos.
Sim a vida é feita de dificuldades e se podermos escolher por quais queremos passar, são menos algumas dificuldades…
Mas já agora, pressuponho que queiras uma alteração à lei actual, sim porque se um feto fôr criado a partir duma violação, também é uma vida (segundo aquilo que achas) também tem direito a viver então. E um feto doente e malformado também é vida, também tem o direito a viver mesmo com as suas dificuldades. E um feto que possa causar a morte à mãe também é vida.
Ou seja, o que achas é que todos os abortos devem ser penalizados, pela máxima protecção à vida. Ou estou enganado? Presumo que quando ficares engripada te deixes morrer então, porquê o vírus da gripe é uma forma de vida também, e não podes decidir pela vida de outros.
Olá caro Parvo Na Cadeira.
O nome faz juz à figura. Sendo que no sentido figurado aborto significa monstruosidade. O que se denota nas tuas afirmações é dureza nas palavras e vontade de vingar a tua opção ou melhor a tua convicção não respeitando sequer a dos outros.
Respeito que sejas a favor do aborto a 100% em todas as suas vertantes mas receio que se assim for até aceites rejeitar um dia, um filho que nasça deficiente em que todos os exames tenham falhado…para te dar a informação necessária para que o mates antes de veres os seus olhinhos olhando para os teus.
Penso como a Susana e voto no sim e nela. Sente-se que ela tem equilibrio e responsabilidade a viver no mundo. Desejo-te felicidades Susana. A ti parvo na cadeira também, mas desejo-te tb moderação e que sejas grato à tua mãe por não te ter abortado por ter tido enjoos.
Devemos saber ouvir e tentar entender os outros. Entendo que estejas revoltado com algo mas os estados não são permanentes – tenta abortar esses para o teu bem.
Quando disse voto sim é na susana e não no sim ao aborto! Vou votar não!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!com todo meu coração
É engraçado como falhas na argumentação geram ataques pessoais ridículos.
Parabéns Sandra, pela tua não-argumentação e vontade de peixeirada, parece que tens assento na assembleia.
Também não queres fazer vingar a tua opção? Senão não ias votar no referendo. Há gente com uma lata…
P.S.: Lá tu nunca ires abortar, não podes negar a outra pessoa essa possibilidade.
As pessoas não são todas iguais e não têm de ser obrigadas a seguir os valores de outros.
Quanto à piada óbvia pelo meu nick:
Sobre o autor.
“Respeito que sejas a favor do aborto a 100% em todas as suas vertantes mas receio que se assim for até aceites rejeitar um dia, um filho que nasça deficiente em que todos os exames tenham falhado…para te dar a informação necessária para que o mates antes de veres os seus olhinhos olhando para os teus.”
Dependendo da deficiência, digo-te “sim”. Por vezes poderia ser melhor a opção de matar alguém, do que fazer esse alguém ter toda uma vida em sofrimento. Argumentos também ele válidos para a questão da eutanasia. Se te dissessem que a criança não vivia mais do que 10 ou 15 anos, que nunca iria ser uma criança normal, não seria preferivel não a fazer passar por isso? Quanto a mim, seria…
E quanto à definição de responsabilidade, por parte da Susana. Ser-se responsável também parte por ter o discernimento de escolher o que é o melhor, tanto para a mulher, como para a criança em questão. Parece-te um crime muito grande fazer um aborto…será preferivel colocar a criança numa instituição quando nascer? É só uma dificuldade com que tem de viver para o resto da vida… como qualquer outra. Não será ser-se responsável, evitar esse tipo de dificuldades?
É engraçado quando se acusam os outros de não reflectirem sobre um determinado tema, quando não se vê mais nada à frente do nariz do que a sua opiniãozinha mal formulada.
Quero apenas que ao relembrar que votando não na despenalização do aborto, não acabam com abortos, estão apenas a remetê-los para a clandestinidade, pondo em risco a vida da mãe.
E depois acontecem casos como o que me contaram em que uma mulher que queria fazer um aborto já com 6 meses de gravidez(!!!) foi a uma dessas pessoas que na ilegalidade lá fazem abortos a quem foi dito que não tinha mais de 6 semanas, e assim se fez um aborto com 6 meses, tudo porque não é prática despenalizada (o que neste caso seria impossível fazer, pois os médicos teriam meios para confirmar a história da mulher e obviamente não fariam um aborto nestas condições).
Não pense quem vota no não que vai mudar o que quer que seja, vai apenas permitir que tudo esteja na sombra e que se cometam crimes como estes abortos cuja gravidez já era bastante avançada (e que aí sim já podemos confirmar que se trata dum ser vivo).
Caro Parvo na cadeira,
Ponderei se deveria ou não responder à mensagem que me dedicaste.Decidi fazê-lo, não porque considere tais palavras meritórias do meu tempo, mas porque temo que possas vir, tu próprio, a ser uma influência negativa para outros.
Admito que mostraste desde o inicio falta de capacidade de aceitação da liberdade de opinião dos outros ao utilizares a frase introdutória que passo a citar: ” é um daqueles assuntos que quando se começam a debater acabam sempre em sangue”, donde que, a tua reacção em nada me surpreendeu. Parece que até neste ponto discordamos! Para mim, saber debater sobre esta ou qualquer outra problemática é saber transmitir com eloquência mensagens, e saber ouvir as dos outros, sem com isso perder as estribeiras recorrendo a fundamentalismos descabidos.E por favor, poupa-me de transcrições integrais do dicionário!
Na realidade,nas minhas primeiras palavras, não era minha intenção argumentar, nem tão pouco convencer os outros, até porque argumentos ( alguns até muito bons)é o que não faltam nos depoimentos anteriores.
Apenas deixei o meu coração falar, esperançosa de que palavras vindas de tal fonte fossem capazes de amenizar a aspereza das palavras que encontrei nascidas de alguém que acolheu em si revolta, intransigência e prepotência. Ninguém é dono da razão, só podemos estar bem mais perto da verdade do que outros, mas isso não nos dá o direito de nos sentirmos superiores.A mim, não me importa se sou eu ou tu que argumenta melhor pois não me sinto numa competição, nem numa batalha que terminaria em sangue; não quero vencedores,nem vencidos, luto para que unidos por uma boa causa possamos todos ganhar!
Acho até engraçado que uses argumentos baseados em factos ligados à área da saúde, querendo explicar-me alguns conceitos…É que vou segredar-te algo: sou uma mulher da ciência, alguém que abraçou a medicina, e como tal vou dar-te um conselho para teu próprio bem: Para evitares cair em descrédito, ou pior ainda, no ridiculo, evita usares argumentos descabidos. É que por norma, quem muito quer dizer, nada diz; aqueles que se querem mostrar eruditos são os que morrem pela boca, pois esta atraiçoa-os, revelando a sua ignorância.A agir como tu, posso referir aqui que também há um vírus de nome Parvovírus, e que uma das suas muitas manifestações clinicas é um exantema facial com aspecto de “face esbofeteada” ( fonte: Manual de Medicina- Harrison- 15ª edição, pág.523/524 – caso queiras aprofundar ainda mais os teus conhecimentos na área da Saúde).
Sou pela vida!
Sou pelo respeito!
Sou pela dignidade!
Faço votos sinceros de que encontres em breve a paz interior.
Que a felicidade possa caminhar de mãos dadas com todos aqueles que lerem as minhas palavras, quer concordem ou discordem delas.
Tanta palavra, para um simples “olha o meu galhardete”, não é preciso abraçar ciência nem medicina para se ter uma opinião. Sim, porque ter um canudo significa o que significa.
Eu sei o que é um parvovírus, não é preciso um curso nem uma citação de Harrison.
De facto quem muito quer dizer dilui o significado das suas palavras. Bravo Susana, nem os teus próprios conselhos consegues seguir.
Não se é apenas uma influência negativa porque se discorda de outras opiniões. Ou talvez queiras que não se fale no assunto porque é tabu, porque quanto menos se souber mais decisões erradas se tomam.
Gostava de saber se na tua área de estudo, ninguém tem argumentos e se vai tudo pelo coração. Isso só provaria o estado precário em que a medicina neste país se encontra.
Que venham profissionais de medicina espanhóis tomar conta disto tudo, são muito mais humanos que os “profissionais” de cá e pelos vistos mais profissionais também.
Não me venhas com slogans para fazer valer os teus pontos de vista, propaganda barata para lavagem cerebral.
Ser pela vida, pelo respeito e pela dignidade é ser pela precaridade, por imposição de restrições a outros, por manter na clandestinidade um problema e fechar os olhos?
yay…agora passámos para o argumento “eu sou de medicina, portanto sei”.
Porque estar pelo sim, é sinónimo de revolta e prepotência?
É sinónimo da prepotência de decidir pelos outros, isto porque se admite que os outos são todos burros e não sabem decidir por si. Ah espera, isso se calhar é o não.
Já que não respondi há bocado respondo agora, para além de “abraçar a medicina” deves abraçar a parapsicologia para assumires o que quer que seja do meu estado de espírito sem sequer teres contacto comigo.
Se é assim que elaboras diagnósticos, tenho pena dos pacientes.
É a prepotência desta gente que se acha o máximo que já me levou a ter graves problemas devido a diagnósticos apressados e arrogância de entidades médicas.
Ainda bem que sempre tive a força e o estado de espírito para questionar o que me diziam…
“Que venham profissionais de medicina espanhóis tomar conta disto tudo, são muito mais humanos que os “profissionais” de cá e pelos vistos mais profissionais também.”
Caro colega, lamento mas tenho que discordar consigo nesta matéria. Uma ovelha tresmalhada não faz todo um rebanho. Aposto que a nossa vizinha Espanha tambem forma maus profissionais e haverão concerteza alguns deles que serão contra a interrupção voluntária da gravidez. Da mesma forma encontramos bons profissionais no nosso país com opiniões diferentes nesta matéria.
Tudo para dizer que o produto nacional é bom e que em pouco ou nada ficamos a perder em relação aos nossos vizinhos. Concordo que venham para cá profissionais de saúde espanhois ocupar vagas que a nossa produção não consegue preencher. Conheço e aplaudo quem tenha ido tirar medicina a Espanha por não entrar cá por uma décima. Pior estariamos se nao houvessem médicos de nenhuma nacionalidade.
Em relação ao aborto a minha opinião é a seguinte: acho que ele nunca devia ter chegado a líder do PS.
Em relação à IVG, vou votar SIM. Querem argumentos? Leiam os posts anteriores, tão cheios deles e eu não ia acrescentar nada de novo.
Bem, talvez tenha generalizado demais. Nem todos são maus.
Mas por acaso penso que os médicos espanhóis têm a vantagem de se terem formado em medicina porque o quiseram já que a média não é completamente proibitiva lá. E há muitos cá que tiraram o curso, porque os papás não aceitavam que o filhote fosse para outra coisa, e lá o filho contrariado teve de se matar a estudar para agradar aos caprichos dos papás.
Antes mais, não deixa de ser um bom post, embora esteja claramente limitado à mentalidade do “sim”. A verdade é que este post, de facto, revela a única vantagem no sim. Mas mesmo essa vantagem é relativa. Porque, e já vi que esses fanáticos que por aí andam normalmente não pensam nisto, os abortos clandestinos VÃO continuar. Por acaso alguém sabe, dos abortos clandestinos actuais, qual a percentagem dos que são feitos DEPOIS das 10 semanas? Como é clandestino ninguém sabe, mas de certo chega a metade ou passa. Há quem os faça às 20 semanas. E pensam mesmo que isto os vai impedir? Para quê dar cabo de ainda mais potenciais vidas, se uma dessas pessoas com “menos condições”, semanas antes de parir, toma alguns comprimidos com acção uterina (misoprostol) e pronto? Meus amigos, Portugal é actualmente uma bandalheira completa, esta é apenas uma medida fácil que o governo encontrou para nos levar a pensar que há coisas que estão a melhorar. Sim, medida fácil. Porque é que, em vez de promover e aumentar o número de abortos, não se cria uma instituição que cuide dessas mulheres e depois do parto fique com os bebés? Por acaso sabem qual é o tempo médio de espera para adoptar uma criança em Portugal? Especialmente, se falarmos em termos de recém-nascidos? Com as queixas constantes sobre falta de natalidade e excesso de envelhecimento, com tanta gente a querer ter um filho e não pode. Já se dizia, dá Deus nozes a quem não tem dentes.
Para não referir que o principal motivo não deixa de ser uma grande anedota. “Quero fazer um aborto porque engravidei sem querer ter filhos.”. Meus amigos com capacidade intelectual menos desenvolvida, é para isso que serve o sexo: ter filhos. Não querem, há métodos para o evitar. E o medo de ter filhos, ou simplesmente a não vontade de os ter, serve para outra coisa, nomeadamente diminuir a propagação da chamada SIDA.
Até arrisco, e chego a afirmar que a quantidade de abortos clandestinos vai aumentar, para não falar em doenças. Grande maioria do chamado povo ignorante vai largar os métodos contraceptivos. Afinal de contas, agora pode-se fazer sexo sem preocupações, basta meter um aborto por mês na agenda e pronto.
E votar no sim é muito fácil, o pior é depois pensar no “como”. O SNS está actualmente a funcionar perfeitamente, para receber tamanho número de novas intervenções por dia. Qual a vantagem de legalizar o aborto às 10 semanas, se a pessoa vai ter de esperar 15 para o fazer?
É caso para dizer que em Portugal não se nasce, só se morre. Fecham as maternidades, mandam as futuras mães para Espanha com grande incómodo, e começam a abortar. Porque não fizeram ao contrário? Sinceramente, parece conspiração.
E outra coisa. Direitos das mulheres? Claro que sim… mas, e direitos dos homens? O macho que engravidou, não leva o filho no útero, mas de certo merece alguma consideração. Ou não? Até que ponto, um homem de um momento para o outro, perde um filho, até mesmo sem saber que o fez? Isso não é ir contra os direitos dele?
Para finalizar, gostava de dizer aos pseudo-intelectuais, que por acaso voltaram a bater na tal tecla que diz “os médicos portugueses só o são pela nota, os espanhóis são melhores”, que se toda a gente entrasse no curso por vocação, o país não estava como está. Sim, caso não tenham reparado, em política não se vai longe sem ela… E o Sr. Parvo Na Cadeira, por acaso nunca chegou a esse córtex, que os problemas originados na arrogância médica podem ter origem indirecta no governo? Por exemplo, urgências extra não pagas (que claro, você não se importaria de passar as noites a ouvir doentes, por beneficiência, sem ser pago… no que respeita a medicina é sempre muito fácil falar e reclamar, mas a ignorância aqui chega a ser lesiva)? Uma coisa digo, se eu fosse médico em Espanha em lugar de o ser em Portugal, de certo seria melhor médico pelo simples facto de lá ser reconhecido pelo trabalho que faço, o que por mecanismo de feedback obviamente me levava a ter uma melhor atitude profissional, boa disposição e empatia para com o doente. E é só isso que falta ao médico português… pelo menos a alguns deles. Porque o médico espanhol NÃO é melhor que o português. Todos os médicos espanhóis que conheço dizem que os de cá têm mais conhecimentos, o que falta é motivação no trabalho. Afinal de contas eles devem saber melhor que certos parvos frustrados.
Conclusão: não voto no “sim”, não por querer que continuem a morrer mulheres por tentar abortar clandestinamente (uma vez que é isso que quem vota sim pensa de quem vai votar não), mas por ter esperança em medidas melhores que venham a ser adoptadas por futuros governos. E claro também para contrariar o presente governo e a sua tendência para adoptar medidas extremamente fáceis mas inaceitáveis. Enfim, its the tuga way. Não há dinheiro, aumentam-se os impostos. Não se arranja maneira de contornar o aborto, então que se aborte. Não há médicos, fecham-se as urgências (e depois ficam 900 médicos internos sem vaga para continuarem os estudos).
E até que ponto se pode insultar um médico que vai votar “NÃO” por se considerar uma pessoa que faz tudo para salvar uma vida? É esta a sua definição de médico pouco profissional? Ou também vai votar contrariado no “não” por influência dos papás?
Acho engrçado como as pessoas que votam NÃO nunca se referem à qeustão de haver mulheres a morrer ou a ficar com a saúde comprometida pelo facto de actualmente o aborto ser penalizado.
Até posso concordar com algumas coisas do post anterior. Mas não deveríamos primeiro ter condições e só depois penaliar o aborto? se existissem alternativas reais ao IVG, provavelmente existiram pessoas a optar por outra possibilidade.
E , realmente os contraceptivos existem. Mas a sua fiabilidade não é uma certeza. Quantas são as pessoas que engravidam apesar de optarem por métodos contraceptivos supostamente confiáveis ?
RC:
Vê-se que não tens contacto com instituições de solidarieade social que acolhem crianças. Els estão a rebentar pelas costuras. E em que medida o não haver aborto promove a celeridade de adopção duma criança?
Estás a querer dizer que as mulheres devem ter filhos que não querem para os entregarem a instituições para depois serem escolhidos da prateleira por papás adoptantes?
Se há muitos abortos para além das 10 semanas mais uma razão para despenalizar, assim podem-se punir mais gravemente estes casos.
Ou seja, abstinência para quem não quer filhos? Já agora paramos de consumir electricidade porque a poluição nos vai matar a todos. Já sei, e que tal voltar à idade da pedra e andar com mocas a arrastar mulheres?
Sabes que a percentagem de eficácia dum preservativo é de 99,9%? 0,1% é uma percentagem do caraças, porque parece que não mas toca a todos.
Aposto que até vão haver clínicas com promoções a cada pack de 10 abortos feitos num ano. Get real, não sejas infantil.
O SNS já tem de receber milhares de casos de mulheres com problemas devido a abortos clandestinos, não me parece que vá mudar nada (antes pelo contrário). O facto dum serviço ser ineficiente, não invalida as razões por trás do referendo. Digo mais, até é uma razão para reestruturar este serviço.
É, eu também concordo que fechar unidades hospitalares desnecessárias é uma coisa boa. Não se podem manter coisas que custam a todos para benefício de uns poucos. É economia básica.
Se o “macho” quer um filho deve discuti-lo com a mulher, e devem planeá-lo, não pode ser uma coisa que de um momento para o outro aparece e depois lá tem de se criar o puto.
Sim, porque a maior parte dos médicos portugueses não têm clínicas privadas pelas quais se preocupam mais do que pelo emprego “principal” deles. Ou estão no privado ou estão no público, ambos não. (Porque toda a gente sabe que belas maquias se faxem a partir de consultas que às vezes são apenas publicidade barata para a cliníca própria ou do amigo)
Há muitas maneiras de salvar vidas. Nem tudo é preto no branco, por incrível que isso te possa parecer.
P.S.: Se dás tanta atenção a uma pessoa que chamas de frustrada, provavelmente isso implica algo sobre ti.
Caro Parvo na Cadeira,
(Conheço muitas instituições de apoio que curiosamente foram criadas pelos movimentos cívicos do não a partir de 1998..)
Só deixo uma pergunta: Acham mesmo que o aborto clandestino irá acabar com a alteração à lei?
Cumprimentos.
Caro Ricardo,
Não fizeram mais que obrigação, minimizar um problema que não deixaram resolver, mas curiosamente não são financiadas pelo ar, mas sim por donativos.
Acabar não acaba, porque isto de absolutos toda a gente sabe que não existem. Se uma grande percentagem vai acabar? Sim.
Podem-se finalmente penalizar duramente todos os outros abortos que sejam clandestinos? Sim.
Fora de contexto desta resposta:
Cada dia que passa há mais um membro do clero a regurgitar a sua a sua opinião em relação a este assunto, mostro aqui a minha insatisfação novamente com membros religiosos a tentarem misturar questões religiosas com questões políticas.
O problema é esse mesmo: quererem encarar isto como um “problema político”. Desde quando é que o direito à vida é só e apenas uma questão política? É mais que tudo uma questão de humanidade, e portanto qualquer humano, seja do “clero” ou seja um deputado ignorante, tem o direito de dizer qualquer coisa. Não fosse isto uma democracia.
Mais uma vez, algo sério é ridicularizado.
É curioso queimarem quem diz “não” como se fossem animais que não querem saber das CLANDESTINAS que têm problemas de saúde. Ora, só têm problemas porque fazem algo que sabem estar fora da lei. Isso acontece a todos. Por morrerem traficantes de droga, não quer dizer que sejamos a favor do consumo e venda da respectiva, certo? Presumo que sejam.
Se se preocupam tanto com essas mães e se julgam ser tão humanistas, não percebo como votam numa lei que poderia evitar (caso fosse um país normal) alguns problemas de saúde/mortes, mas que no entanto vai matar dez vezes mais a longo prazo. Mais uma vez, torna-se um problema político. Mas não se trata de uma lei que vai salvar milhões. É uma lei que vai salvar duas dúzias de mulheres que vivem num bairro de lata e não sabem o que é um perservativo, e à custa disso cria-se um novo método contraceptivo assassino que vai substituir todos os outros e por isso matar, apagar oportunidades de vida, possíveis génios, artistas, cientistas, modelos, actores, médicos, ou no sentido político do termo, “eliminar nados potenciais” ou mesmo, “reduzir acentuadamente a natalidade”.
À custa de gente que não se quer dar ao trabalho de comprar preservativos, quem está à espera de uma operação a um problema de certo muito mais grave que ter um filho, vai ter de esperar o dobro. Cada 2,3 abortos tiram o orçamento de uma operação normal. Quantas pessoas morrerão à espera? Não sei quanto a vocês, mas se tiver de ser operado não gostava de ter de esperar mais pelo orçamento, porque ele está a ser gasto em abortos. E acreditem que não vão ser poucos.
E a não esquecer: todos os que supostamente vão fazer os abortos, juraram, um dia, não o fazer.
Não te preocupes com orçamento para a medicina, que desconfio que o da solidariedade social vai descer bastante e pode cobri-lo.
Vida é um conceito para o qual não se conhecem os limites, nem o seu início. Ou será que sou um assassino por matar espermatozóides num preservativo ou uma mulher que tem a sua menstruação e aniquila um óvulo!
A religião NUNCA deve interferir com política. Porquê? Porque isso é assumir que todos têm de seguir os valores morais duma dada religião. Se eu não sou religioso, não me podiam importar menos esses valores e portanto não vou viver restrito a esses mesmos valores, quem quiser que viva (portanto oso praticantes dessa religião).
Pelo teu comentário mulheres dum bairro de lata são menos mulheres que as outras… E ainda há a lata de acusar quem é a favor do sim de não ter respeito pela vida humana…
Eu vou falar com um dos meus espermatozóides que ficou preso num preservativo que ia ser o precursor da paz mundial acerca do assunto de possibilidades que não tiveram ramificações. Parece-me um assunto interessante, se bem que o tratas num prisma infantilóide.
É mais que óbvio que vai haver acompanhamento para estas mulheres, e que não basta tirar um ticket para fazer um aborto, deixemos as infantilidades e o medo infundado, OK?
Mais uma vez, a tua vida pelos vistos está acima da dos outros, porque tu fazes a tua operação descansado enquanto alguém morre a fazer um aborto clandestino. Que respeito pela vida!
Que sejam despedidos e que venham para o lugar deles aqueles que querem trabalhar. Tendo em conta que já fazem abortos até às 24 semanas em caso de violação da mulher, não estou de facto a ver o problema deles. Falso moralismo? Epá, parece que sim.
A julgar pelos comentários arrogantes, aqui só uma pessoa está acima das outras “infantis”. Será isso uma ligeira crise de egocentrismo? Ou o meu amigo acabou agora de encontrar a luz e a fonte de toda a verdade?
Em 2005 houve 73 casos, e não milhares, de mulheres atendidas na sequência de abortos clandestinos. Não percebi ainda o escândalo. E só 6% dos abortos realizados em países europeus com legislação semelhante à pretendida em Portugal, são realizados por mulheres com rendimentos familiares inferiores a 7000 euros. O que ainda é muito mais dinheiro que o possuído pelas nossas mulheres em tão mau estado social.
Quanto ao comentário dos “limites da vida”… No sentido fisiológico da coisa, o feto em si já terá sistema nervoso. Poderá sentir? Sim. Pelo que será extremamente aburdo um vegetariano votar sim. Para não falar nos abortos de 15 e 20 semanas que se vão fazer “legalmente”. Quer agora dizer, que um espermatozóide é tão ser vivo como uma pessoa? Um espermatozóide NÃO é uma pessoa. Um feto com 10 semanas É uma pessoa, extremamente jovem e ignorante. Mas se o deixarem, alimenta-se, faz as suas necessidades, cresce. O espermatozóide morre automaticamente, quer queiram quer não. “Pois mas vão haver abortos a fetos de 1 semana” Eina, que mãe tão perspicaz. Ou agora poderíamos matar ser vivos À mesma escala com que morrem espermatozóides? Nem Hitler conseguiria tamanho feito.
Acerca da religião… A igreja não está a impor a opinião dela, parece mais o contrário. Uma religião constituída por um conjunto de pessoas com determinadas crenças, se bem que a opinião delas possa ter base em algumas delas, não quer dizer que não esteja tão bem fundamentada como a nossa, e tão desviada dos padrões considerados “normais” para não ser tida em conta por ateus.
Cada partido político não representa uma religião mas também defende certos valores morais, assim como certas decisões que nos afectam mais directamente. Pelo que vamos viver restritos a essas decisões. Conclusão: não tenho razão para ignorar mais a religião (que como à partida não querem lucro, até podem dar uma ideia mais lúcida sobre o assunto) que determinados partidos políticos, cujos ideiais simplesmente “não me agradam”. Para além de que nunca vi um padre na rua a implorar por uma decisão, ao contrário de certos partidos.
O problema aqui é que se trata de uma luta entre política e humanidade pura e dura. A vertente política é desumana. A não ser que queira insistir sobre as 100 clandestinas que tiveram problemas. Para não dizer que elas sabiam os ricos que corriam. Enfim, continuano. Ganhar a política é sinal de eficiência. Ser-se prático, sem pensar no assunto. Aborta-se tudo e pronto, fim. O exemplo mais extremo desta vertente seria o dado por certos e determinados fascistas. Ganhar o lado humanitário seria diferente. Era dar o exemplo da Alemanha, onde foi aprovada a quantia de 25 mil euros por nascimento. Aposto que se eles vivessem cá votavam Sim ao aborto em todas as grávidas, tal não seria e pena que teriam da miséria em que o vulgar português iria viver (e vive actualmente). Mas enfim em países de 3º mundo como Portugal faz-se o contrário, mesmo depois de a natalidade ter descido para metade, faz-se com que deixa para um quarto. Aposto que mesmo que dessem o valor correspondente ao aborto, 500€, deixavam de existir mulheres “sem condições” a abortar.
E já agora, quanto ao “haver acompanhamento”,
http://www.youtube.com/watch?v=AfrMHnT3jKE&mode=related&search=
Sim, é dito por um demagogo, mas acredito mais nele do que no jovem Sócrates. Apoio o não porque acredito neste vídeo, mesmo antes de o ter visto. Portugal = bandalheira. O limite de 10 meses é para enganar o povo, infelizmente ignorante. Ou quer sua excelência dizer-me que acredita que ninguém vai abortar depois do limite?
Falsos moralismos? Não estamos nós cheios disso? Maioria dos “jovens” que vota Sim ou é bloquista ou só quer saber de Morangos Com Açúcar, pelo que a ideia de poderem praticar sexo descansados sem se terem de preocupar com a pílula (que por acaso é de borla) deve ser mais suficiente. Pelo menos os bloquistas agarram-se a um ideal mais firme que é o não à clandestinidade em geral, ao contrário dos restantes que se baseiam em certas razões mais… despropositadas. Coitada, recebe 2000€ por mês, engravidou à 15 semanas, o marido ainda não sabe… tem uma ligeira depressão, correu mal o dia, a enfermeira no hospital é conhecida e deixa-a adulterar os papéis… afinal de contas já o tinha feito 4 vezes.
E faltou responder à questão da operação. SIM, nesse caso estou a cima de qualquer galdéria. Porque se eu estiver numa lista de espera para uma operação, é porque estou DOENTE, tenho um problema de saúde que pode ser grave.
Ora, uma mulher que quer fazer um aborto NÃO está doente. Pura e simplesmente, vai atrasar 2 operações (que para quem espera 1 ano pode deveras ser muito, se for atrasar todas as que estão à sua frente), por mero capricho.
Já agora. Os abortos “públicos” em Portugal vão ser mais caros que os feitos em Espanha pelas “ricas”. E esta hein? Agora a diferença é que as “ricas” fazem os abortos cá, não gastam um tostão… porque o POVO paga! E é isto Portugal, andamos a pagar caprichos. Pelo menos, tal como fizeram com as maternidades, enviavam as senhoras para Espanha e faziam lá, sob “protocolo”. Seria mais barato e não alongava as listas de espera. “Ai que incómodo, ter de ir para Espanha quando posso fazer um aborto já aqui!”. Pois é, mas aí, até quem QUER ter o filho vai ter de ir a Espanha. Paciência!
Sinceramente, vou deixar de responder aos comentários de quem é apologista de que a lei continue como está.
Não tenho tempo para estar aí a destruir completamente todo o comentário idiota e mal-formado (e inclusive mal informado) que me aparece à frente.
Ainda por cima vindo de gente mal-educada e elitista que se acha acima de outras pessoas por uma razão qualquer (Se calhar é um dos filhos do Duque de Bragança sei lá, ouvi dizer que essas pessoas têm sangue azul, como os caracóis).
O que vale é que é nestas coisas que se vê o estado da nossa nação, e a principal razão pela qual é uma merda, o seu povo, idiota e retrógado não merece mais.
Olá a todos,
O ideal cívico compele-me a deixar-vos a minha opinião, velha de quase dois anos, mas à qual não retiro ou acrescento uma vírgula.
Um abraço,
Afonso Gaiolas
Sexta-feira, Abril 22, 2005
Referendo sobre o aborto, ou um aborto de referendo?
Diz-se daqueles que, apesar de receberem contínuos sinais de recusa das fêmeas que tentam cortejar, apesar de engolirem mais sapos do que as margens da ribeira de Cobres albergam, se insinuam de tal forma insistentemente que a conquista do troféu se dá pelo cansaço, diz-se, dizia eu, que a façanha foi conseguida por “esmagamento”.
Serve esta analogia para ilustrar o que me parece ser o pensamento de alguns sectores da nossa sociedade face à problemática do aborto em Portugal.
Merece o assunto as controvérsias de proporções bíblicas que proporcionou nos últimos tempos?
Tudo isso e muito mais.
Penso, contudo, que muito se tem rematado, mas continuamente ao poste, poucas vezes se discutindo o que realmente interessa debater.
Vou começar pela própria palavra ABORTO – Acto ou efeito de abortar. Nunca o dicionário refere a aniquilação de um ser como significado da palavra, mas ao invés, define-a como a expulsão do feto antes do fim da gestação, ou ainda “o que nasceu (começou a ter vida exterior) prematuramente”.
Curiosa esta diferença conceptual de vida exterior e interior, tão curiosa que nalgumas comunidades que não a nossa, de desenvolvimento imaculado e mãos sempre limpas, se considera a contagem de ambos os períodos na idade das pessoas.
Todos consideramos como o mais hediondo dos crimes a eliminação de um ser recém-nascido. Pois bem, construamos uma simples fita de tempo. No intervalo temporal D+x (sendo D o momento do nascimento e x qualquer período que escolhamos (1 mês, 1 ano, 10 anos, 100 anos, …), a palavra assassínio estará sempre presente, se decidirmos aniquilar um ser humano em qualquer destas idades. Mais complexa se torna a análise se trocarmos o sinal da adição pelo da subtracção. A partir de que momento consideramos estarem reunidas todas as condições para que, em consciência, possamos afirmar existir VIDA? Pensar demasiado sem conhecimento científico suficiente, torna angustiante a busca de respostas. Confesso que foi o que me aconteceu. Tanto mais que a proliferação de artigos sobre o tema em causa só torna ainda mais nebulosa a formação de uma opinião. Uma fracção de segundo, um dia, dez, doze, dezasseis semanas ou nove meses?
Defendo que as leis de um país se devem reger pelos valores morais que os seus cidadãos consideram ser os correctos, nunca se devendo ceder à tentação de resolver um problema com outro problema. Não me serve portanto o argumento da falta de informação, da má qualidade das instituições de solidariedade social que prestam a educação a quem não pôde ser acolhido por uma família, da inconveniência temporal, ou qualquer outro de cariz similar.
Em coerência devo portanto afirmar que, sendo o valor da vida o mais importante na escala das pertenças individuais, a partir do momento em que cientificamente me provarem que a centelha existe, devem ser repudiados todos os actos contrários ao seu desenvolvimento e maturação.
Pois, pois, centelha é muito vago…
Estava só a tentar ganhar tempo para que o meu cérebro me ajudasse…
Disse cérebro?
Se trocarmos um rim, continuamos a ser nós próprios?
Concordam que sim!
Se trocarmos de coração, continuamos a ser nós próprios?
Concordam que sim!
E se trocarmos de cérebro?
Eu convictamente penso que não. Acredito aliás que a verdadeira fonte de longevidade para os seres humanos reside na substituição de “componentes”, preservando ao máximo o único insubstituível – o cérebro.
Reside aqui portanto a resposta à minha pergunta.
É verdade que no momento da concepção, potencialmente temos uma vida a ser gerada. Mas estamos ainda no domínio das células indiferenciadas, e a verdade é que, mexendo os cordelinhos certos, ou errados, conforme o ponto de vista, podemos gerar uma miríade de monstruosidades que com a vida nada têm em comum. Não considero portanto que os inúmeros bancos de embriões existentes pelo mundo sejam imorais, uma vez que a essência de cada ser individual ainda não existe – que o cérebro ainda não se formou.
Parece ser cientificamente aceite que todos os principais componentes do cérebro são claramente distinguíveis praticamente cinco semanas após a concepção. Assim sendo, em nome da coerência, até essa data (ou qualquer outra mais precisa que cientificamente seja acreditada) não deveria ser criminalizada, penalizada, ou sequer moralmente condenável a decisão de inviabilizar a evolução do embrião. Dentro deste período, englobar-se-iam os casos excepcionais já previstos na nossa legislação, exceptuando claro o risco de vida para a mãe. Para a análise de malformações, ter-se-ia que fazer um esforço, grande, é certo, mas realizável se bem direccionado no sentido de, por análise genética, se determinar o mais precocemente possível a sanidade de cada futuro ser humano.
Tendo tornado clara a minha posição, resta-me tecer um comentário, necessariamente cáustico ao slogan “A barriga é minha, faço dela o que quiser!”, e outras idiotices do mesmo calibre, que só tornam ridícula a posição de algumas mulheres, que pensam ser este o cavalo de batalha final contra a opressão masculina. É verdade que é o indivíduo do sexo feminino o veículo hospedeiro do novo ser que está a ser gerado, e que provavelmente é o acto mais nobre a que alguém poderá em toda a sua vida aspirar, mas isso não tira o direito e simultaneamente a responsabilidade do homem perante o seu filho. Deveríamos pois ver ambos os progenitores condenados pelo acto abortivo, se existisse o conhecimento da acção, mas pela mesma ordem de ideias, negar a unilateralidade materna na decisão de continuar, ou não, com o processo de gestação.
Quanto aos direitos sobre a barriga, esses são inalienáveis (embora algumas devessem receber mais conselhos sobre estética), mas quando se trata da geração de um novo ser, ainda e sempre reaparece o velho, mas sábio conceito, que sumariamente nos lembra que a liberdade individual termina onde começa a liberdade de terceiros.
Decidam em consciência!
Acho que nada descreve tão bem o “Não” como um autocolante que vi numa parede a favor do “Sim”, rasgado e com “Não” escrito por cima.
É o tipo de opressão e falso moralismo que uns tentam impôr nos outros através da ignorância destes últimos e da falta de argumentos válidos dos primeiros.
A questão do aborto é um campo extremamente complexo, “é uma questão que envolve muita coisa, sentimentos, moralidade, religião, política, justiça, cultura”… As campanhas do SIM e do Não, como nós as vemos na televisão, nas ruas, nos folhetos, na radio etc. gere uma luta ideológica. Entre esta luta de ideologias são sufocados os do partido “Não sei”. Esta guerra, que já se arrasta a meses, e tem o fim agendado para o dia 11 de Fevereiro de 2007, tem jogado com muitos argumentos, alguns superflúos outras consideráveis… Eu pretendo sucintamente expor e comentar algum destes argumentos, quer por lado dos SIM quer por lado do NÃO:
1- Há pessoas do lado do NÃO que defendem que abortar é um crime – “Pois bem, a lei vigente já permite abortar nas excepções previstas no Código Penal. Portanto abortar, segundo estes casos concretos, não é constituido crime. Aliás, a questão do referendo diverge sobre esta matéria ”
2- Os do lado do SIM, defendem que a mulher não deve ser julgada e considerada criminosa por abortar – “Ainda não houve nenhuma mulher julgada ou detida por ter praticado o aborto em Portugal”
3- Os do lado do SIM argumentam que o embrião ou feto (consoante a semana de gravidez) não representa vida – “Bem, então é porque nunca tiveram biologia na escola”
4- Os do lado do NÃO defendem que é crime matar vida humana – “É verdade que é crime acabar com a vida humana… Mas vamos lá pensar um bocado, será que um feto é considerado vida humana até às 10 semanas… Será ser humano é apenas existir?… ou é uma vertente entre três campos inseparáveis – psicológicos, sociais e físico… A meu ver um ser humano é bem mais do que existir… E em termos jurídicos, todo o indíviduo aquire plena personalidade jurídica apenas no momento da sua nascença, ou seja, trata-se do momento em que um indivíduo tem capacidade para aquisição de direitos. Até ao nascimento estamos em face da problemática dos direitos sem sujeito, segundo o disposto no artigo 66º do Código Civil.
5- Os do lado do SIM defendem o aborto até às 10 semanas – ” E se abortar aos 9 meses, é crime… Mas qual é o critério?… É porque o feto ja está formado…Porque já tem capacidade para sentir a dor? Porque já se assemelha muito a um bebé? E então porque não às 8, 7, 6, 5, ou 4 meses? O que diz a ciência? Bem a ciência também não tem resposta… uns dizem uma coisas os outros dizem outra… E não vale a pena mencionar nomes de cientistas famosos, premiados com o Nobel, porque há sempre outros, com o mesmo estatuto, e afirmações bem diferentes ou até contraditórias.
6- Os médicos defensores do NÃO, afirmam que abortar vai contra a sua ética e contra o juramento de Hipócrates – Vamos lá ver uma coisa, o juramento de Hipócrates não tem carácter vinculativo…é mais uma tradição, cujo texto foi proferido por um filósofo grego de há mais 3000 mil anos e que é jurado por todos os médicos pós-formados… Durante estes 3000 anos a sociedade evoluiu de forma exponencial em todos os sentidos…Portanto não podemos fazer a comparação entre um mundo histórico, datado A.C., com o mundo actual…A medicina de há 3000 anos não é a mesma de hoje… Aliás, a medicina de hoje não tem como fonte de ética o juramento de um filósofo grego, mas sim, a WORLD MEDICAL ASSOCIATION, onde se incluem documentos importantos como DECLARATION OF GENEVA, Code of Medical Ethics, DECLARATION ON THERAPEUTIC ABORTION etc. os quais são e devem ser seguidos por todos os médicos a nível mundial e cuja abordagem sobre aborto é bem diferente daquela no juramento de Hipócrates.
7- Os do lado do SIM defendem que o aborto liberalizado vai acabar com o aborto clandestino – Isso é falso, não vai acabar com o aborto clandestino, mas vai indubitávelmente reduzir o número destes. Porque se nós fomos ver, o aborto será liberalizado apenas até às 10 semanas, e se uma mulher pretender abortar às 11 semanas, já não o pode fazer, e é susceptível de constituir-se como criminosa e levar com uma pena de prisão até aos 3 anos. Portanto, a despenalização da mulher em abortar tem os seus limites. E como muitas as outras mulheres, estas continuam a ser obrigadas a passar um fim de semana na Espanha, aquando as 11 semanas de gravidez.
8- Os do SIM estão certos que abortar vai trazer só vantagens – Bem, de facto, se a lei do SIM conseguir ir avante, vai trazer as suas vantagens… A mulher poderá abortar até às 10 semanas sem consentimento, e consequentemente, tem a liberdade de escolha decidir o que é melhor para ela e para o feto… se bem que para o feto não sei se será a melhor opção… é que se perguntarem a qualquer pessoa quer que seja muito pobre, deficiente, ou quer que esteja numa situação extremamente complicada por diversas razões, se preferiam continuar a viver a vida ou se prefiram morrer instantâneamente? Não tenho dúvida que estas pessoas opteriam pela primeira parte da pergunta…eu vejo pessoas a lutarem todos os dias pelas suas vidas, mesmo que a conjuntura não seja a melhor, que seja péssima, um beco sem saída, há sempre a tal luz ao fim do túnel que os leva a lutar pela sua vida, existe sempre miníma esperança de dar a volta… Isto foi só assim um aparte. Bem, continuando com as vantagens, a maior vantagem, como já tinha referido, é a plena capacidade da mulher poder decidir se pretende a viver uma vida despreocupada e focar as suas atenções noutras áreas como a sua profissão, e seguir carreira, criar um espaço propício para a educação e crescimento do seu filho e dicidir quando é a altura certa para tê-lo… Outra vantagem é poder praticar o aborto num estabelecimento legal e autorizado e o Estado arrecadar nos seus cofres os impostos incidentes sobre o aborto… agora também há desvantagens… pela portaria emanada pelo SNS (Sistema Nacional de Saúde) um aborto vai custar à volta de 800-1000€…esta quantia não é nada vantajoso para uma mulher económicamente debilitada…Será que o Estado ajuda?…Bem, uma coisa é certa, ele não ajuda financeiramente as pessoas, para a aquisição de vacinas notórios como o caso das vacinas contra a meningite 300€ (a maior causa de morte dos infantís e aconselhada por pediatras), a vacina contra o cancro do útero etc. Outra questão é que os abortos vão ter estatuto prioritário, ou seja, pessoas que estão à espera por serem operadas há mais de um ano por causa de uma hérnia, cujas dores as impossibilitam de trabalhar regularmente (estou a falar de um familiar meu) vão ter que dar prioridade às intervenções voluntárias de gravidez…. O que vai acontecer às filas de espera do nosso até já então debilitado Sistema de Saúde? O Governo que responda!
9- Os do NÃO apresentam várias caras, uns defendem a despenalização do aborto mas não a liberalização deste, outros acham que o aborto é crime, e os restantes diversificam-se por variadas razões mantendo o NÃO bem assente no que concerne à questão do referendo 2007 – Uma coisa é certa, a lei vigente não funciona e não resolve os problemas do abortos clandestino… E outra coisa também é certa, a prática do aborto comparado com o homícidio qualificado não tem o mesmo peso social…aliás não se comparam… Eu conheço muitas mulheres que já abortaram e não é por isso que eu vou contactar as autoridades…é por isso que não existe nenhuma mulher na prisão por ter cometido o aborto em Portugal…a sociedade não condena as mulheres por isso…mas não restam dúvidas se assistir a um homicídio vou imediatamente contactar as autoridades por ser um acto socialmente condenável… outro argumento é que se houvesse despenalização, também devia haver liberalização, porque independemente de ser legal abortar ou não, a mulher continuaria a praticá-lo clandestinamente num local talvez sem as mínimas condições higiénicas…as consequências de um aborto clandestino, talvez por culpa das deficientes habilitações do sujeito que participa activamente no aborto, são assustadores na medida que as mulheres são susceptíveis de saírem com lesões que podem levar desde a esterilidade até à própria morte…
Isto são alguns argumentos proferidos pelos dois partidos da campanha do aborto, e previamente comentados pela minha autoria…não quero influenciar ninguém…eu só quero apenas expor uma ideias e ver a questão do aborto pelo seu todo…também não me declarei como do SIM nem do NÃO… só o farei no dia indicado – dia 11 de Fevereiro 2007. Apenas peço-vos para votar nesse dia, nem que seja em branco…. Obrigado!
Só queria fazer notar uma coisa ao comentário de cima, apesar de já ser permitido à mulher abortar em caso de deficiência do feto há muitas que NÃO abortam. Ou seja há pessoas que apesar de poderem abortar, não o fazem.
Em suma: Ninguém é obrigado a abortar em que circunstância seja, mas neste caso em particular já é permitida a opção.
P.S.: Um aborto pode custar 800€ a 1000€, mas uma criança numa instituição custa 600€ por MÊS ao estado, portanto se é para lutar pela via económica (que não acho que seja a melhor via para se decidir) também não é por aí.
Hum… se for pela via económica ou temos a mensalidade da criança ou a da mae e médicos na prisão pelo aborto…
Quanto às filas de espera, os problemas desse foro não são tratados conjuntamente com os problemas de rins e operação ao coração.
Vida? para mim o embrião é vida. Mas se o problema é ser vida, então não podemos matar formigas nem tomar antibiótico.
Até pode não deixar de haver o aborto clandestino, mas passa a haver uma alternativa legal com o sim. Por outro lado, as parteiras ou médicos que o façam ilegalmente poderão mais facilmente ser responsabilizados pelas lesadas por possíveis danos.
Quanto às mulheres condenadas por terem efectuado um aborto, não eram o que diziam as estatisticas nos jornais ha alguns dias atrás… E mesmo que não o tenham sido, é um contracenso legal, haver uma lei para não ser cumprida e servir de fachada hipócrita.
É mais ecónomica para o Estado, disso não tenho dúvidas… quando referi os preços de aborto, emitidas pela portaria do SNS, estava a falar na perspectiva da mulher e não do Estado…
Com os melhores cumprimentos
[...] Parvo na Cadeira do Factor F falou-nos do “Aborto (ou que comecem os jogos)” e os jogos começaram nos comentários criando umas discussão nada amigável mas que demonstrou a [...]
Quem sao os politicos para decidir o que que uma mulher tem ou deixa de fazer?
Porque tenhem poder, pensam que sabem de tudo.
Eu acho que toda mulher pode fazer o que quiser, abortar ou nao, ela é que sabe.
o aborto deveria ser permitido até aos 18 anos de idade… para acabar com certas tribos de “criaturas” que andam por aí à solta…
agora pq ñ tem falando como começar o texto com um citação do aborto?
eu acho que este tipo de jogo devia ser legalizado